Clarice Lispector escreveu Laços de família em 1960. Numa tarde quente de 1996, eu me lembro, li Feliz aniversário numa coletânea de contos que peguei na biblioteca da escola. E desde então eu não pude mais ficar muito tempo longe daquelas palavras tão difíceis de entender à primeira vista.
O orkut me mostrou que as pessoas gostam de frases de efeito. A internet está cheia de perfis que se definem através das palavras bonitas de Clarice, e quem poderia ser culpado por esse bom gosto literário? Eu fico feliz com a popularização das citações que, para mim, são tão maiores do que as letras mostram.
Mesmo repetindo releituras, eu sempre me surpreendo com o que Clarice escreveu. E percebi que dessa surpresa nasce o entendimento e a aplicação daquilo na minha vida. Eu recheio a minha vida dos clichês mais conhecidos sem vergonha alguma - apenas com a simplicidade que as leituras incansáveis finalmente me ensinaram.
Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.
Não porque eu pretendo ir além da liberdade. Pelo contrário. Eu enxergo a liberdade como algo tão comum que, para mim, realmente é pouco. E o que eu desejo não tem nome porque não está feito. Eu estou descobrindo devagar, em pequenos sustos. De repente acontece e eu percebo: era aquilo.
O que obviamente não presta sempre me interessou muito.
Eu não pratico atividades ilícitas. O que obviamente não presta é produto do senso comum. É aquele estranhamento que se causa ao nadar contra a corrente. É fazer o contrário do que se esperava. É frustrar expectativas. Mas me interessa porque me faz feliz, e eu estou aprendendo que é isso que me importa.
Detesto coisas mais ou menos, não sei amar mais ou menos, não me entrego de forma mais ou menos.
Não há muito o que interpretar aqui, não é? Eu sou de extremos, eu vou até o fundo, eu cutuco até doer. Mas tem que ser inteiro. Não sei os porquês, mas me esforço para que não machuque tanto. Sabe, eu ando pensando muito em ser mais ou menos de vez em quando. Dá tão menos trabalho.
Depois que aprendi a pensar por mim mesma, nunca mais pensei igual aos outros.
Eu respeito as diferenças, respeito de verdade. E me orgulho muito disso. E olhando para mim, para a minha vida, eu entendi que tudo o que sei é fruto do que vivi. Não do que me contaram, não do que eu li. O que eu vivi é só meu, e eu aprendi do meu jeito. É tão libertador saber que você pode pensar o que quiser!
Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: - E daí? Eu adoro voar.
Eu não gosto de voar. O lugar dos meus pés é no chão, bem firmes. Mas se você me empurrar, eu vou voar e vou mentir para mim mesma que estou gostando. Porque você me empurrou, não fui eu quem se jogou. Não dependeu de mim. Por isso eu vôo. Porque não vou permitir que a vida me faça cair.
Você às vezes não estranha de ser você?
Todo santo dia.
Mas é o que eu sou, então eu serei da melhor forma que conseguir.
A grande mágica da literatura é se descobrir através das palavras de outras pessoas. Eu me vi em tantas palavras. Eu me assustei quando me vi nas palavras da Virginia Woolf. Eu entendi a minha condição humana quando me vi nas palavras de Guimarães Rosa. Eu me perdi e me encontrei muitas vezes nas palavras de Drummond. Eu percebi a complexidade muito simples que existe na vida atrás de Hemingway. Eu encontrei o meu coração nas palavras de Gabriel García Márquez. Cada vez que a minha alma é tocada por algo que não foi escrito por mim, eu me descubro e aprendo a me aceitar. Porque se mais alguém no mundo pensou como eu, não deve haver tanto estranhamento.
Mas até hoje nenhum livro cutucou tão fundo quanto as palavras da Clarice. E é por isso que eu leio, leio, leio.
É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Eu, Clarice e os clichês
Marcador: Here
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Depois que descobri o recurso de agendamento de postagens, atualizar meus blogs ficou mais fácil. No outro eu consigo postar durante o feriado, e nesse aqui consegui ficar um mês longe sem ninguém notar.
Se tudo deu certo, esse texto vai ao ar no meu segundo dia de férias. Entre viagens e planejamentos, não consegui agendar mais textos. Mas a vida real pede mais dedicação do que a virtual, então é bom desplugar de vez em quando. Orkut, blog, msn, facebook comem um tempo que não volta nunca. E também cansa às vezes ficar presa num mundo em que cada um pode ser o que quiser, até que você mesma percebe que não reconhece mais tanta gente que estava ali ao lado.
Vou tirar a cara da tela e sair por aí, desligar msn e atender telefone. Porque faz falta ouvir vozes, dar risada junto, repartir as novidades, e é pra isso que servem as férias, no fim das contas. Ah, é para isso que serve a vida, isso sim.
And yeah, I'm still alive.
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sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Pesquisa da Semana
"galeria do rock é tomada pelos emos"
Isso não é uma pergunta, mas sim uma afirmação. E eu tenho que concordar: a Galeria do Rock foi mesmo tomada pelos emos, da mesma maneira que tinha sido tomada pelos clubbers há alguns anos, lembram?
Mas a galeria do rock é um templo consagrado, então sempre haverá aqueles típicos exemplares perambulando pelos corredores: armários heavy metal cheios de tatuagens, góticos de sobretudo em pleno verão, hard rockers de calças justas e cabelos compridos, garotas punk com saias de pregas, cabelos coloridos e piercings... Então, colega roqueiro, pode continuar a frequentar a tranquilamente. Se houver emos demais, chegue perto deles e grite "buh!". Eles se assustam, saem correndo e o caminho fica livre outra vez.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Música para aprender a viver
Blues da piedade
Frejat/Cazuza
Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm
Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem
Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem
(Veja e ouça aqui)
Não tenho muito mais a comentar, já falei muito sobre isso. Todo mundo tem oportunidade de viver (e não apenas sobreviver), e eu acho um enorme desperdício se tornar espectador da própria existência. Ainda mais quando se é jovem e as opções são muitas.
Sempre há escolha, sempre há saída, sempre tem como recomeçar. Não é fácil, mas vale muito a pena.
A gente cresce na dor, mas cresce principalmente quando tem coragem.
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sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Pesquisa da Semana
"como plantar flores de plastico"
Pergunta errada. O certo seria: pra quê plantar flores de plástico? Não vai me dizer que dá certo!
O mais inacreditável é que realmente existe algum pangaré por aí que pretende plantar flores artificiais. Quando eu digo que já perdi a fé na existência de vida inteligente na Terra, tenho embasamento teórico.
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