Acabei de reler meus posts de fim de ano de 2006. É estranho como tanta coisa muda em tão pouco tempo. 2006 foi um grande ano em minha vida, para o bem e para o mal - muitas coisas boas aconteceram, e felizmente aprendi a lidar com outras tantas ruins que são inevitáveis.
2007 chegou como a promessa de grandes realizações. Eu tinha plantado muitas sementes, e estava regando e adubando com cuidado e carinho. Então 2007 se mostrou, como ando definindo, um ano broxante.
Minhas sementes não vingaram. O universo resolveu me dar uma grande rasteira, e eu passei o ano inteiro tentando não me afogar. Diria que deu certo, já que consegui manter um certo equilíbrio para seguir em frente, confiar e plantar novas mudas.
Ocorre agora que os meus esforços para manter a calma, ainda que externa ou superficial, estão se esvairindo. Desde muito pequena eu aprendi que certas coisas são melhores quando guardadas, então cá estou eu para me despedir desse ano tão difícil de entender. Esse é o post número 100, e resolvi fechar o ano com a conta redonda. Confesso que a falta de comentários foi um agravante, mas tudo bem.
A vocês que vêm aqui fuçar, ler, comentar ou qualquer coisa assim, ficam meus sinceros votos de que 2008 seja um grande ano. Não gastem suas economias em presentes de Natal, porque tudo vai entrar me liqüidação em janeiro.
Desejo que todos vocês tenham sempre muita paz, saúde e força, exatamente nessa ordem, para seguir em frente e conquistar o que almejam. Ah, claro, e que vocês tenham sabedoria ao escolher o que de fato almejam.
Para mim, desejo apenas que 2008 seja melhor do que 2007.
Vejo vocês em janeiro, navegantes!
Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara
Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára
Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára
Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando uma agulha num palheiro
Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára
Cazuza e Arnaldo Brandão
7 de dezembro de 2007
3 de dezembro de 2007
Nós ainda somos os mesmos, e vivemos...
Eu já tentei muitas vezes escrever sobre ele, mas sempre empaco nas primeiras linhas. Talvez fosse preciso um certo distanciamento para conseguir ser verdadeira em todos os sentidos, mas fico feliz pela distância ser curta.
Meu pai faz aniversário amanhã, então quero me esforçar para fazer o texto acontecer dessa vez. Não que faça diferença, porque ele não vai ler mesmo, e por dois motivos: meu pai é avesso às tecnologias e não se interessa pelo que escrevo. E acreditem, isso não é uma queixa. Eu me acostumei.
Meu pai conserva um certo ar blasé, e parece não se interessar por nada do que é alheio. Não é de conversar muito, e quando fala, nunca é pessoal. Ninguém sabe o que ele faz em sua vida secreta, embora todos saibam que ele realmente não faz nada de surpreendente ou estarrecedor.
Meu pai tem uma grande dificuldade em admitir que os outros fazem as coisas bem feitas. Nunca recebi um elogio dele. Se eu tirava 9,5, ele dizia que deveria ser 10; quando fazia um desenho, ele dizia que a árvore era pequena demais em relação ao cachorro. Creio ser ele o responsável pelo meu perfeccionismo irritante e senso crítico insuportável. Ele não gosta de comemorar Ano Novo (nem vou falar sobre o Natal), não se importa com cartinhas de dia dos pais, abre os presentes de aniversário - quando abre -, agradece e continua lendo jornal. Tem uma língua afiada de fazer qualquer um perder a graça, e chama o papa de filho da puta com a mesma facilidade com que diz que o peru está uma merda. Minha mãe tem que rebolar para colocar panos quentes e não deixar ninguém chateado.
Ele gosta de ficar sozinho. Acho que ele adorava quando a gente era pequeno e ia passar as férias na praia; a gente pintava e bordava lá enquanto ele curtia seus dias de glória aqui em casa. E suspeito que tenha herdado dele o saudável hábito de, hum, dispensar roupas na ausência de terceiros. Confesso que nós também aproveitamos quando ele não está em casa, ou quando está dormindo. É aí que a gente fala alto, dá risada, vê filme até de madrugada, faz pipoca, canta, toca, dança, imita. Sabe como é, quando o gato sai, os ratos aqui fazem a festa. Quando ele está por aqui, tudo tem que ser feito em absoluto silêncio e no escuro, pra economizar luz.
Quando eu era pequena, meu pai era a figura mais incrível que conhecia. Ele lia muito, e os títulos dos livros eram tão instigantes que eu tinha vontade de pedir para ele ler para mim, mas desde aquela época sabia que nem deveria perder meu tempo. Depois ele foi parando de ler, e os filmes passaram a dominar quase todo o seu tempo livre. Foi ele quem me levou ao cinema para ver o filme do Arquivo X.
É muito difícil conviver com alguém que pouco fala, que guarda afagos apenas para aniversários e Natais e que nunca tem palavras amáveis. Eu não sei explicar qual a forma que meu pai tem de demonstrar amor, apenas sei que ele ama - principalmente a minha mãe. O tempo passa e meu pai continua sendo uma incógnita.
Estranhamente, sem nunca ter sido dito, ele me conhece muito bem. Sabe o que eu gosto de ver, de ouvir, de ler, e me traz as novidades de tudo o que eu gosto. Apesar dos pesares, eu sempre fui a filhinha do papai e isso não mudou; apesar de ele não trazer mais Kinder ovo ou gibi da Monica, meu estoque de Coca Cola está sempre abastecido.
Outro dia eu estava na cozinha conversando com a minha mãe quando ele entrou. Começou uma certa música no rádio, ele disse que aquela era a minha música e eu perguntei se já estava na hora de eu assumir e sumir. E apesar das queixas quase diárias dos incontáveis gastos financeiros que eu dou, ele disse que nunca, de jeito nenhum! E é sempre assim entre nós, fica o dito pelo não dito e acabamos nos entendendo. Eu não preciso das palavras belas ou dos diálogos para saber que sou muito parecida com ele, que herdei os mesmos defeitos e que, a cada dia que passa, vejo mais em mim daquilo que tanto condeno nele.
Eu provavelmente nunca disse com todas as letras, mas te entendo e te amo de um jeito inexplicável.
Meu pai faz aniversário amanhã, então quero me esforçar para fazer o texto acontecer dessa vez. Não que faça diferença, porque ele não vai ler mesmo, e por dois motivos: meu pai é avesso às tecnologias e não se interessa pelo que escrevo. E acreditem, isso não é uma queixa. Eu me acostumei.
Meu pai conserva um certo ar blasé, e parece não se interessar por nada do que é alheio. Não é de conversar muito, e quando fala, nunca é pessoal. Ninguém sabe o que ele faz em sua vida secreta, embora todos saibam que ele realmente não faz nada de surpreendente ou estarrecedor.
Meu pai tem uma grande dificuldade em admitir que os outros fazem as coisas bem feitas. Nunca recebi um elogio dele. Se eu tirava 9,5, ele dizia que deveria ser 10; quando fazia um desenho, ele dizia que a árvore era pequena demais em relação ao cachorro. Creio ser ele o responsável pelo meu perfeccionismo irritante e senso crítico insuportável. Ele não gosta de comemorar Ano Novo (nem vou falar sobre o Natal), não se importa com cartinhas de dia dos pais, abre os presentes de aniversário - quando abre -, agradece e continua lendo jornal. Tem uma língua afiada de fazer qualquer um perder a graça, e chama o papa de filho da puta com a mesma facilidade com que diz que o peru está uma merda. Minha mãe tem que rebolar para colocar panos quentes e não deixar ninguém chateado.
Ele gosta de ficar sozinho. Acho que ele adorava quando a gente era pequeno e ia passar as férias na praia; a gente pintava e bordava lá enquanto ele curtia seus dias de glória aqui em casa. E suspeito que tenha herdado dele o saudável hábito de, hum, dispensar roupas na ausência de terceiros. Confesso que nós também aproveitamos quando ele não está em casa, ou quando está dormindo. É aí que a gente fala alto, dá risada, vê filme até de madrugada, faz pipoca, canta, toca, dança, imita. Sabe como é, quando o gato sai, os ratos aqui fazem a festa. Quando ele está por aqui, tudo tem que ser feito em absoluto silêncio e no escuro, pra economizar luz.
Quando eu era pequena, meu pai era a figura mais incrível que conhecia. Ele lia muito, e os títulos dos livros eram tão instigantes que eu tinha vontade de pedir para ele ler para mim, mas desde aquela época sabia que nem deveria perder meu tempo. Depois ele foi parando de ler, e os filmes passaram a dominar quase todo o seu tempo livre. Foi ele quem me levou ao cinema para ver o filme do Arquivo X.
É muito difícil conviver com alguém que pouco fala, que guarda afagos apenas para aniversários e Natais e que nunca tem palavras amáveis. Eu não sei explicar qual a forma que meu pai tem de demonstrar amor, apenas sei que ele ama - principalmente a minha mãe. O tempo passa e meu pai continua sendo uma incógnita.
Estranhamente, sem nunca ter sido dito, ele me conhece muito bem. Sabe o que eu gosto de ver, de ouvir, de ler, e me traz as novidades de tudo o que eu gosto. Apesar dos pesares, eu sempre fui a filhinha do papai e isso não mudou; apesar de ele não trazer mais Kinder ovo ou gibi da Monica, meu estoque de Coca Cola está sempre abastecido.
Outro dia eu estava na cozinha conversando com a minha mãe quando ele entrou. Começou uma certa música no rádio, ele disse que aquela era a minha música e eu perguntei se já estava na hora de eu assumir e sumir. E apesar das queixas quase diárias dos incontáveis gastos financeiros que eu dou, ele disse que nunca, de jeito nenhum! E é sempre assim entre nós, fica o dito pelo não dito e acabamos nos entendendo. Eu não preciso das palavras belas ou dos diálogos para saber que sou muito parecida com ele, que herdei os mesmos defeitos e que, a cada dia que passa, vejo mais em mim daquilo que tanto condeno nele.
Eu provavelmente nunca disse com todas as letras, mas te entendo e te amo de um jeito inexplicável.
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