6 de dezembro de 2010

Cheiro de saudades

Se tem um cheiro que aguça a minha memória, é o cheiro de pipoca de cinema. Que, veja bem, não é o mesmo cheiro da pipoca de microondas que a gente faz em casa, e nem daquela oleosíssima que a gente compra, pra alternar com o milho verde, antes de entrar na fila do ônibus.
É passar em frente ao cinema e sentir o cheiro amanteigado que eu penso em inverno. Talvez porque o tempo frio não seja dos mais propícios para passeios ao ar livre, eu sempre fui muito ao cinema nessa época. Aliás, eu sempre fui muito cinema em qualquer época.
O cheiro de pipoca me lembra das sessões que eu peguei no Extra Anchieta com a Paloma, quando estudávamos na ETE. Nós éramos as campeãs de filminhos de terror - e naquela fase Pânico / Lenda urbana / Eu sei o que vocês fizeram no verão passado, tinha muito filme de terror para adolescentes. Nós ainda assistimos Dez coisas que eu odeio em você, e eu confesso que chorei no final. Mas o filme que mais marcou foi Elizabeth, porque a projeção estava meio defeituosa e achatava os personagens. Para mim, a rainha e seus nobres mais pareciam uns tomatinhos.
Também sempre me lembro dos filmes que vi com a minha mãe a minha avó. Minha avó, a velhinha mais esperta do velho oeste, se fazia valer da idade para entrar na sala antes de todo mundo. Aí ia ela com a minha mãe, a acompanhante, esperar lá dentro. Enquanto eu, do lado de fora, ficava na fila para poder sentar no lugar que já estava guardado. Nós somos uma família de mafiosas.
E eu não sei bem o motivo, mas o cheiro de pipoca de cinema me lembra uma jaqueta vermelha que tive.
Embora eu tenha sido uma moça namoradeira, o cheiro de pipoca não me desperta muitas lembranças românticas. É um cheiro dos filmes que eu realmente quis ver. O cheiro da minha adolescência, das amigas que se perderam pelo caminho, dos passeios familiares. O cheiro de mim quando era mais nova. Da meia entrada com carteirinha da escola.
O cheiro da pipoca me transporta para um tempo tão, tão bom, e aparentemente tão longínquo, que parece ter ficado em outra vida. Numa vida em que a diversão era ir ao cinema, em que não tinha bar nem balada, em que nem eu e nem meus amigos podíamos dirigir, em que o fim de semana era filme e ICQ depois da meia noite. Era menos, muito menos, mas era maravilhoso.
E quer saber? Eu nem como pipoca com manteiga.

5 divagações:

mãe disse...

Também tenho saudade das pipocas que comemos juntas no cinema.

Jú B disse...

Olá, bonita =) Preciso saber de duas coisas: sua formação e se você tem interesse em farmacov! =P Me manda um e-mail: jubondiole@gmail.com
Beijos!

Anônimo disse...

Amo ler os seus textos!

Marcelo "Muta" Ramos disse...

ah, mas a memória olfativa é mesmo uma coisa!

mas meu problema não é o olfato e sim minha memória, que me atrapalha um pouco quanto a sentimentos mais nostálgicos... sei lá, hehe, mas é bom ler sobre as histórias que sempre comentamos a cada vez que vamos ao cinema ou apenas passamos em frente a eles.

aliás, o que está passando hein? faz tempo que a gente não assiste a um filme no cine... :o)

beijos!

Jussara disse...

Adoro os seus textos.
E adorei o "Era menos, muito menos, mas era maravilhoso."