17 de dezembro de 2010

Filhos únicos são mais felizes?

Agora estão saindo várias reportagens sobre as muitas vantagens de ser filho único.

Quando o Thiago nasceu, eu tinha 2 anos e 5 meses. Ou seja, eu não sei o que é ser filha única. O que eu sei é que os Comandos em Ação podem ser filhos da Barbie, que existe um prazer mórbido em esconder seu potinho de salgadinho enquanto o irmão come, e que irmão mais novo topa comer a parte da bolacha que não tem recheio.

A Samantha, quando era pequena, não tinha opinião formada sobre ser filha única. Ela teve todas as mordomias: quarto cor de rosa, mil roupinhas da moda, tênis caros, furgão da Barbie. A mãe dela a chamava de "meu bebê", amassava os comprimidos, misturava com guaraná e a colocava no colo para tomar o remédio. Depois de adulta, a Samantha me disse várias vezes que queria ter um irmão para poder dividir o fardo do pai doente. E muitos outros fardos que ela acabou carregando sozinha.

Eu e o Thiago sempre dividimos o mesmo quarto. E o mesmo guarda-roupas, a mesma cômoda e o mesmo computador - até cada um poder comprar seu note. Nós usamos tênis Le Cheval para ir pra escola, e no Natal ganhavamos um tênis "de sair" (que duraria até o Natal seguinte). Ele herdou minhas camisetas e calças de moletom, e nós nunca disputamos atenção ou preferência de pai e mãe. Tinha lugar pra todo mundo.

A Cindy diz que queria ter tido um irmão desde o primeiro dia que a conheci. Ela já me contou várias vezes sobre quando a mãe dela achou que substituiria um bebê por bonecas ou pintinhos, e fazer referências ao "irmão da Cindy" virou uma brincadeira comum. Acho que ela queria um irmão para ter companhia e poder contar sempre com alguém, mas existe um fato inquestionável: ela tem uma mãe integral e pode contar com ela sempre e mais um pouco.

Teve uma fase, depois da infância, em que eu e o Thiago ficamos mais afastados. Cada um com sua vida, suas novidades e seus/suas namorados(as). Ele era bagunceiro demais, e meu TOC foi sendo aprimorado com o passar dos anos. Eu queria dormir no escuro, mas a luz do computador + luminária batia direto no meu rosto - e ele não queria trocar de cama. Um sabotava a cota de Pringles do outro. E os brados inconformados eram bem altos.

Eu acredito que o Bruno gostaria de ter tido um irmão para dividir tudo. E acredito que essa ideia de ter um irmão deve ter sido tão presente na vida dele que, para quem não conhece, é quase impossível adivinhar que ele seja filho único. Os pais do Bruno deram a ele uma fonte de renda desde bem novo, ele ganhou carro de presente e pode trabalhar só depois de formado. Repito: é quase impossível afirmar que ele não tenha um irmão.

Eu e o Thiago pudemos estudar em escola particular porque a minha mãe trabalhava no nosso colégio. Quando ela foi demitida, eu estava na oitava série, e o Thiago, na sexta. Meus pais pagaram dois anos de colégio para que ele pudesse, como eu, estudar lá até terminar o extinto ginásio.
Eu tirei carta de motorista aos 19 anos, e o Thiago, aos 20. Meus pais nunca emprestaram o carro para que a gente pudesse trabalhar ou ir para a faculdade.
Eu queria estudar Medicina, e minha única opção era entrar numa faculdade pública - o que não consegui fazer, graças a um colegial muito ruim. Como estudei numa faculdade não tão cara, o Thiago pode estudar Engenharia na FEI.

Quando eu conheci a Sandra, ela tinha 11 ou 12 anos. Sua mãe, que era chinesa, tinha morrido há uns quatro anos. Ela morava só com o pai, e a pessoa mais próxima a ela era uma vizinha chamada Margarete. Se não me engano, a Sandra tinha uma tia que morava na Liberdade, mas elas não tinham muito contato. O pai da Sandra morreu alguns meses antes dela completar 18 anos. Ele tinha deixado para ela o apartamento e uma poupança, mas como ela era menor de idade, não podia fazer nada com esses bens. A mãe da Aline, uma amiga nossa, foi tutora da Sandra até que ela atingiu a maioridade. A Sandra ficou morando sozinha desde então, e foi se afastando de todo mundo até que eu nunca mais tive notícias dela.

Meu pai me ensinou que o que acontece numa casa só diz respeito a quem mora na casa, e eu sempre levei isso muito a sério. Mas vou contar que, uma vez, meu pai quis ir embora. Era aniversário do Thiago, e depois de um dia inteiro de conversas inflamadas, comemoramos o aniversário na pizzaria que tínhamos na época. Meu pai encheu uma bexiga amarela.
Quando cheguei no velório do Alexandre, o Thiago desceu do carro comigo. Ele sentou no banco ao meu lado, e segurou a minha mão dizendo para eu ter calma. Antes de sair de casa, ele me perguntou se podia levar a faixa de quando o São Paulo ganhou a Libertadores.

É quase impossível que eu saiba muita coisa sobre ser filho único. Acredito que deva ter vantagens, afinal, tem tanta gente que acha bom. Mas a verdade é que eu nunca escutei alguém que tem irmãos dizer que preferia não tê-los.

3 divagações:

Tata disse...

Eu amo os meus irmãos, mas eu juro que só vou ter 2 filhos se cada um puder ter o seu quarto, pq é MUITO chato dividir!

Marcelo "Muta" Ramos disse...

bem, tendo duas irmãs eu tbm não tenho como opinar sobre filhos únicos...

quanto aos meus (nossos =P), bem: se a verba permitir 2, tudo bem, senão poderei perguntar ao filho único sobre isso no futuro. :D

Jussara disse...

Não vejo vantagens em ser filho único... mas hj os casais , cada vez mais querem ter apenas um filho, no máximo dois.
Acho que ser e ter apenas um filho é ruim pro filho e tb pros pais. Mas, como tudo, talvez tenha tb um lado bom.

Que triste a história da Sandra.

Ter irmãos é bom qdo o irmão é companheiro e com pouca diferença de idade. Eu só tenho irmãos, mas queria mesmo era ter tido uma irmã.

Adorei o "meu TOC foi sendo aprimorado com o passar dos anos". Tb só gosto de dormir no escuro, sem luz nenhuma atrapalhando.


PS: estava vendo os blogs "linkados" ao seu, e eu tb leio os blogs de mãe listados aí (o da Lia, da Mari, Paloma e Carol - futura mãe). Aliás, eu leio mtos blogs de mães, queria ler menos, mas parece que é um caminho sem volta ( e olha que nem sou mãe, nem sei se vou ser um dia :/).
Tb leio o blog da Lola, ele abriu meus olhos pra muita coisa.