14 de fevereiro de 2011

Cisne Negro: você é o seu maior inimigo

Eu não vou reescrever uma sinopse, e também não sou crítica de cinema. Minha opinião é baseada somente no que vi acontecer, e por isso, o texto tem spoilers.
Cisne Negro é, sob muitos aspectos, um filme de mulher. E é um filme sobre sexo, vale lembrar.
Nina, Natalie Portman magérrima, é uma bailarina que treina desesperadamente para ser perfeita. Ela vive com sua mãe, que nutre pela filha um sentimento bastante ambíguo. Se por um lado a mãe superprotege a filha, envolvendo-a no mundo (perturbador) de quarto de bichinhos de pelúcia e caixa de música, por outro lado a responsabiliza pelo abandono de sua própria carreira como bailarina. E deposita na filha toda a expectativa da realização de um sonho que morreu. Acima de tudo, o sentimento é de extrema dominação.
Após a aposentadoria forçada da primeira bailarina da companhia, Nina é escolhida para interpretar a Rainha Cisne no clássico Lago dos Cisnes. É provável que Nina tenha sido escolhida por ser a bailarina mais dedicada, mas também pode ser que seu treinador tenha feito uma escolha baseado em claras segundas intenções.
Acho interessante colocar aqui que esse treinador, que não hesita em usar seu poder sexual sobre a bailarina, nunca é questionado por Nina. Nina aceita todas as formas de dominação porque acredita que o treinador quer apenas ajuda-la. Em momento algum ela pensa seriamente sobre quais motivos teriam levado à demissão de Beth, até então primeira bailarina da companhia. Nina está focada nela mesma, em sua perfeição (nem necessariamente em sua oportunidade). Por acaso, o treinador é o único personagem masculino de alguma relevância na história. Resumindo, Nina aceita sem restrições todo tipo de dominação que esse homem exerce, acreditando que se trata de pura boa vontade.
Prossigamos.
Enquanto Nina está absolutamente focada em buscar a perfeição como bailarina, surge Lily (a Jackie de That's 70 show), sua opositora. Lily não surge para competir com Nina, mas sim para que Nina arme uma grande competição consigo mesma.
Lily, embora esteja longe de ser tecnicamente perfeita, é aquilo que o treinador estava procurando. Ela dança com a alma e transmite emoção. Lily dança de cabelos soltos, ri alto, interrompe os ensaios, erra, se desculpa e continua dançando. E ao contrário do que possa parecer à princípio, Lily não é o Cisne Negro. Mas sua presença faz com que Nina seja obrigada a buscar o Cisne Negro dentro de si mesma.
O treinador repete inúmeras vezes que sabe que Nina pode ser um Cisne Branco perfeito. Ela pode ser doce ("sweet girl"), inocente e virginal. Mas a Rainha Cisne precisa também ser o Cisne Negro, e a busca de Nina deveria ser por esse equilíbrio.
Mas parece que "equilíbrio" é uma palavra que a protagonista desconhece. 
A busca pelo Cisne Negro está diretamente ligada à libertação sexual de Nina. O diretor insiste nisso. Ele a instiga, ele a ataca, ele pergunta ao parceiro de Nina se ele teria vontade de transar com ela. Como lição de casa, manda que ela se masturbe. E parece que Nina não se importa com o teor das lições, já que o diretor está interessado apenas em sua melhoria.
Mas a tal libertação de Nina acontece, ironicamente, graças a Lily. No entanto, a partir de um certo ponto do filme, a gente não tem mais como saber o que aconteceu de fato e o que é fruto das loucuras de Nina. Nina aparece transando com Lily, mas depois sabemos que isso não aconteceu. O que aconteceu? Nina transou com o cara do bar? Cumpriu a lição de casa e transou sozinha? Não fez absolutamente nada e imaginou tudo? Não dá para saber. Assim como não dá para saber se Lily transou com o diretor, se foi Nina quem o fez, ou se ninguém fez nada e a bailarina que queria ser perfeita imaginou mais uma.
Para Nina, a busca pela perfeição é a porta de entrada para a loucura. Seus maiores medos vão se personificando e tomando conta dela. Ela quer encontrar onde está seu Cisne Negro, quer se libertar, mas não consegue. Para ela, assim como acontece no balé encenado, é preciso matar o Cisne Branco para que o Negro possa existir. Ninguém pode ser perfeita se reunir o Branco e o Negro ao mesmo tempo.
Mas parece que há um lado de Nina que não está assim tão feliz em ser o  Cisne Branco. De repente, parece que um dos grandes conflitos da garota é saber, de fato, qual dos Cisnes precisa ser morto. Ela precisa ser o Negro, mas só sabe ser o Branco (e então podemos perceber o que ela sabe ser, mas fica a dúvida sobre o que ela honestamente gostaria de ser). Engana-se quem pensa que o Cisne Branco é o Cisne bom. Ele faz com que Nina seja incapaz de ter uma visão honesta sobre si mesma. Nina não cai, é o outro bailarino quem a derruba. Nina não precisa de substituta, é a substituta quem quer tomar seu lugar a qualquer preço. O Cisne Branco distorceu a realidade e a tornou insuportável, mas Nina não consegue assumir sua responsabilidade.
Certa de ser a personificação do Cisne Branco, Nina projeta o Cisne Negro em outras pessoas e tenta exterminá-lo. Ela o projeta em sua mãe e em Lily, e sempre procura uma maneira de se livrar dele. Em si mesma, Nina não quer enxergar o Cisne Negro - mesmo que para isso seja preciso ignorar a própria sombra.
Mas, novamente, para ser a bailarina perfeita, é preciso ser o Cisne Negro. E Nina finalmente o encontra, numa demostração apoteótica de sua capacidade e de sua completa loucura. Ela consegue ser perfeita e paga o preço necessário.
Cisne Negro é um filme bastante perturbador. É daqueles que permitem milhares de interpretação - se você assisti-lo dez vezes, verá dez filmes. É um filme fantástico, com uma Natalie Portman fantástica. Mas não é um filme bonitinho sobre esforço e superação. É um filme sobre perfeição e loucura.
O que é a perfeição? É o domínio das técnicas? É a vivência dentro de todas as regras? É a disciplina absoluta? É o cumprimento daquilo é imposto? É a aceitação das ordens? 
Para quem é preciso ser perfeito? Para você mesmo? Para seu treinador? Para a sua mãe? Para a plateia?
Por que a busca pela perfeição precisa de um bode expiatório? Por que alguém que busca a perfeição tem medo de concorrência? Como uma pessoa com defeitos gritantes pode ser uma ameaça ao que é perfeito?
Até onde vai a busca pela perfeição? O que você tem que sacrificar? O que você precisa esconder?
O filme não oferece nenhuma resposta. Mas Nina, ao conseguir concluir a sua apresentação de forma irrepreensível, finalmente descobre o que é preciso para atingir sua perfeição.
Que preço você está disposto a pagar?

3 divagações:

mãe disse...

Nossa, que confusão!!
Quando eu dançava balé, O Lago dos Cisnes era só uma música e a gente nem sabia que cor era o cisne.
Ser criança tem as suas vantagens.

Amanda disse...

Minha explicação com certeza ficou bem mais confusa que o filme... o filme é mais fácil de ler. Mas perturba.
Como eu li num blog essa semana, é um filme que eu amei e nunca mais vou querer ver!

Anônimo disse...

texto perfeito