7 de fevereiro de 2011

Comprometida

Em alguns países sérios, como os Estados Unidos, os currículos são enxutos e compostos unicamente das suas informações profissionais. Nesses lugares, ninguém cogita colocar num currículo dados como idade e estado civil, por exemplo - e se você colocar, provavelmente não será muito bem visto pelas empresas.
Entretanto, nós estamos no Brasil.
Uma vez, fazendo a seleção de alguns estagiários, eu escolhi uma garota que me pareceu extremamente competente. Ela tinha bons cursos na bagagem, alguma experiência, e se expressava muitíssimo bem - o que é bastante importante se o seu trabalho for conversar com pessoas por telefone. E ela estava extremamente disposta a trabalhar. Quando mandei a lista dos candidatos selecionados para minha supervisora, ela barrou minha candidata preferida por um porém que eu deixei passar: a menina tinha um filho. E uma mulher com um filho, todos sabemos, não é capaz de assumir um trabalho com toda a responsabilidade necessária. Porque o filho vai ficar doente, ou vai ter algum problema na escola, e ela sempre irá negligenciar sua carreira.
Obviamente eu, no meu suposto feminismo, fiquei bastante indignada e questionei essa decisão tão arbitrária. Não houve acordo. E eu, embora discordante, continuei trabalhando e assumindo cada vez mais responsabilidades - afinal, apesar de ser mulher, eu era solteira e não tinha filhos.
Mas hoje eu sou uma mulher casada. E chegou a minha vez de compreender o que isso significa.
Quando você busca uma oportunidade de trabalho, encontra pelo caminho diversos tipos de concorrentes. O mercado está repleto de pessoas qualificadas e experientes, e vez ou outra, você é preterido por uma delas. É claro que é extremamente frustrante passar por várias etapas de um processo seletivo e descobrir, enfim, que você não foi o escolhido. Mas você é capaz de entender a situação caso tenha perdido essa oportunidade para alguém que tem mais experiência, mais conhecimentos, mais certificados. Por mais que seja chato perder uma chance de emprego, essa experiência serve para que possamos conhecer nossas falhas - e talvez seja isso que nos mova a trabalhar de graça, aumentar nossos contatos, empregar um dinheiro (que muitas vezes não temos) em cursos e mais cursos. São tentativas para incrementar nosso currículo e nos tornarmos mais competitivos.
No entanto, há algo muito errado quando você perde uma vaga para alguém que tem menos anos de experiência do que você. Que nunca atuou naquela área específica. Que não fez curso algum de aprimoramento. Claro, existe a possibilidade de que você tenha se saído muitíssimo mal na entrevista. Mas veja bem, esse não é o meu caso. As entrevistas sempre foram meu ponto forte.
Se seu currículo é bom e sua entrevista foi ótima, obviamente algo em você não agradou o entrevistador. Em meio a frustração, você busca o que é que pode ter dado errado. E às vezes, você nem precisa cavar muito fundo.
O meu entrevistador, por exemplo, teve um visível sobressalto quando eu mencionei que tinha me casado no ano passado. Imediatamente ele pegou meu currículo e buscou aonde estava essa informação (na verdade, podemos desconfiar da competência de um entrevistador que não leu sequer as três primeiras linhas do currículo do candidato que está sendo entrevistado). Após checar que meu estado civil estava lá, seus olhos buscaram apressadamente a minha mãe esquerda. E sim, há uma aliança lá.
Eu posso não ser a melhor bióloga desse mundo, mas eu me orgulho bastante da minha perspicácia.
Visivelmente surpreso com essa revelação, o meu entrevistador ainda insistiu um pouco nas perguntas de praxe. Mas logo depois, o casamento voltou a estar em pauta. E na verdade, o assunto veio em forma de conselhos, vejam vocês. Meu entrevistador, no alto de sua bondade, sugeriu que eu deveria pensar em quais seriam as minhas prioridades, agora que sou uma mulher casada. Pode ser que eu queira trabalhar apenas 4 ou 5 horas por dia, pode ser que eu queira ter filhos. Claro que filhos não são um problema! Ele mesmo tem filhos e isso não o impede de trabalhar.
Claro. Ele é o diretor. Ele é homem.
E eu, até então, era alguém que acreditava piamente que minha capacidade profissional iria assegurar um lugar ao sol. Eu sei que o mundo é machista. Mas essa realidade, preciso admitir, sempre esteve longe de mim. Eu sempre tive uma postura profissional um tanto agressiva, e como a agressividade é uma característica masculina, passei muito tempo sem sentir o que pode significar ser mulher. Ser casada.
Uma mulher casada, aos olhos de muitos, tem como função principal cuidar do seu lar. Se ela um dia tiver filhos, a carreira estará fadada ao fracasso. Se o marido implicar com as horas extras, ela pedirá demissão. Se for quarta-feira, ela sairá mais cedo para pegar a xepa da Quarta Extra.
No fim das contas, todos sabem que lugar de mulher é dentro de casa. Se ela for solteira, ainda há a salvação de mante-la dessa forma e assegurar que a única coisa importante em sua vida seja o trabalho. Mas se for casada, ela se torna obsoleta.
O homem não. Um homem casado precisa trabalhar para pagar as contas da casa e o cartão de crédito da esposa bondosa. Um homem casado continuará competente, não faltará às happy hours, viajará sempre que necessário, porque, afinal, ele é um homem! Sua prioridade é o trabalho.
Após finalmente enxergar o óbvio, várias mulheres ao meu redor confirmaram essa realidade absurda. Tias, primas, mãe, amigas, conhecidas, todas elas passaram pela humilhação de serem dispensadas por serem casadas. Por terem filhos. Por serem mulheres e estarem cometendo a ousadia de querer adentrar num mundo que não as pertence mais. Algumas foram dispensadas diretamente; outras, como eu, leram as gritantes entrelinhas. Solteiras disseram que, quando responderam sobre o estado civil, despertaram no entrevistador de sorrisos a exclamações de "ainda bem" e "graças a Deus". Acontece o tempo todo.
Mas todo preconceito é velado. Nenhuma empresa quer responder processo por motivos assim, então as mulheres são descartadas com desculpas estapafúrdias. E nós engolimos.
Com essa realidade em mãos, minha reação imediata foi me revoltar contra meu casamento. Vejam vocês como eu mesma fui muito, muito machista. Por alguns instantes eu acreditei que a culpa era minha, que ousei me casar. Que, aos olhos dos outros, me transformei na rainha do lar, na esposa zelosa e na futura mamãe. Num peso morto para o mercado de trabalho.
Mas imediatamente depois eu consegui abrir os olhos e enxergar que, dessa vez, eu fui vítima de preconceito. Mais uma. Eu sigo chateada por estar desempregada, mas muito aliviada por não fazer parte de uma empresa que colocou uma opinião pessoal acima da minha capacidade profissional. De uma empresa machista, horizontal, fadada a se desenvolver desordenadamente, já que os funcionários são escolhidos pelos motivos errados.
Não sou eu que não sou boa o bastante para eles; são eles que não são bons o bastante para mim.

6 divagações:

lola aronovich disse...

Adorei, Amanda! Desde antes do caso das professoras gordas reprovadas no exame médico eu estava com vontade de escrever sobre as (poucas) entrevistas de trabalho que fiz na vida, e se eu senti ou não preconceito nesses casos. Mas pô, ser discriminada por ter filhos já é uma barra. Agora, ser discriminada apenas por ser casada equivale a ser discriminada unicamente por ser mulher. É inadmissível.
E pelo jeito ser mulher é um caso perdido, né? Se vc não casa, a sociedade te condena. Se vc casa, o mercado de trabalho te condena. Se vc casa e fica em casa, muita gente (e a própria mulher) vai dizer "eu não faço nada", como se trabalho não-remunerado não fosse trabalho. Fogo, hein?
Abração! Quando eu escrever o post eu linko o seu.

Marcelo disse...

é meu amor... e pensar que, por exemplo o google, pede para enviarmos nossos CVs não dizendo nem o gênero.

e é assim que deveria ser em tudo: não precisaríamos dizer sequer se somos homems e mulheres antes de mais nada.

será que um dia as coisas mudarão por aqui?!

mãe disse...

É isso aí!!!
Como alguém pode pensar tão pequeno nos dias de hoje?
Mas eu temo que essas histórias ainda vão se repetir por muito tempo.
Veja só: outro dia eu disse para um paciente de 7 anos que ele era a cara da mãe dele. Ele começou a chorar e disse que de jeito nenhum.
Que ele era parecido com o pai porque era HOMEM.
Se essas cabeças não mudarem o que será das nossas meninas de hoje?
Vc é inteligente e competente. E eu digo isso não porque sou sua mãe e sim porque sempre estive ligada com a Educação e vi poucas como vc.
Azar deles que não terão a oportunidade de conhecerem sua capacidade.
Te amo.

Amanda disse...

Mãe, acho que o menos importante nisso tudo é eu ter conseguido ou não o emprego.
O importante é que esse tipo de atitude não deve acontecer. As empresas, os funcionários, todos deveriam jogar mais limpo sobre o que realmente estão pretendendo. Porque agir de forma preconceituosa é muito ruim, mas acho que é pior ainda menosprezar alguém e achar que a pessoa envolvida não vai perceber o que está realmente acontecendo. Sim, ela vai.
É aquela história de achar que negro vê preconceito em tudo. Se você é branco, não sabe o que está dizendo. Aqui, quem é homem, quem é solteira, quem não tem filhos, talvez não seja capaz de enxergar o que está tão óbvio. E infelizmente, enquanto nem todos enxergarem o óbvio, tudo fica como está. Enquanto muitos se calarem, se submeterem a situações erradas, tiverem medo de serem julgados, vamos continuar vivendo numa sociedade que não faz bem para ninguém.
Mas enquanto isso, além de ter passado por uma situação humilhante, você ainda sai como se fosse a louca da história. É...

Anônimo disse...

Vamos fazer um protesto?? (hahaha)
Afinal, as mulheres só começaram a ter direitos depois de mtoo esforço e protestos, dps que resolveram "abrir a boca", e apesar de mt coisa ter mudado, mt ainda pode (e deve) melhorar. Empresa ñ pegar mulher q tem filhos eu já vi, mas agr pq é casada, já é o limite (ñ q o caso de ter filhos ñ seja um absurdo tb)...

Vamos lá pra Praça da República, reivindicar nossos direitos (rsrsrsrs) e mostrar que somos capazes de sermos esposas, mães, donas de casa e ótimass profissionais...

Aaah, to indignada com isso td viu...

Beijos Amanda.

Amanda disse...

Oi, Anônimo! Eu acho complicado reivindicar direitos inatos, de igualdade, garantidos por lei. Porque isso depende exatamente da participação daqueles que, é claro, nunca estariam nas passeatas! rs
E sabe, a gente não precisa provar nada. Mas acho importante que a gente possa dividir essas experiências, pra ninguém ficar achando que deu muito azar. Infelizmente, situações assim são bem comuns. Tão comuns que deve ter uma porrada de gente que não percebe, outro tanto que nem se incomoda. Tem até aqueles que duvidam que exista!
Bom, mas se organizar a passeata, me chama que eu vou! =)