Qualquer aluno de Biologia que se preze conhece o Junqueira. Em parceria com o não menos conhecido Carneiro, o Professor Junqueira é autor de livros de Histologia e Biologia Celuar e Molecular - e ninguém cola grau sem carregar pelo menos uma de suas obras da biblioteca para casa.
Formado em Medicina pela USP, o Dr. Luiz Carlos Uchôa Junqueira foi catedrático em Embriologia e Histologia. Por conseguir atrair parcerias estrangeiras, ele foi o grande responsável pelo reconhecimento das pesquisas realizadas aqui no Brasil. Se você faz ou pretende fazer mestrado ou doutorado na Medicina, pode começar a agradecer ao Junqueira.
Seus livros, traduzidos para diversos idiomas, são adotados nas mais conceituadas universidades do mundo. E sua didática, seu enorme talento, seu amor e dedicação ao trabalho, são exemplos para todos aqueles que querem fazer parte do mundo científico. Hoje mesmo eu estava escutando sobre as suas lâminas incrivelmente perfeitas para microscopia eletrônica.
Todos os dias, quando eu abro o portão verde, penso: "é o laboratório do Junqueira". Diversos alunos, técnicos e pesquisadores passam pelo portão de ferro e provavelmente eu sou a única tonta a ter o mesmo pensamento todas as manhãs. Mas é inevitável. Eu fico pensando que foi ali que nasceram aqueles livros perfeitos, tão inatingíveis para o meu raciocínio durante a graduação. Fico imaginando o Junqueira sentado ali na bancada, com seu microscópio, desenvolvendo técnicas inovadoras, sendo observados por pupilos sortudos.
Para mim, aquele laboratório é um templo. Enquanto eu separo meus camundongos em silêncio, sendo solenemente ignorada pelos demais presentes ou fingindo não perceber os olhares, sorrisinhos e comentários escrotos que nascem quando eu apareço, penso no tempo em que eu ainda nem era nascida. Abstraio. Penso no Professor Junqueira e nas portas sempre abertas daquele templo. Penso que houve um tempo em que pesquisar era uma prestação de serviço e em que as pessoas precisavam estudar muito para conquistar um título. Num tempo em que as equipes eram competentes e trabalhavam em conjunto. Em que todos tinham consciência da importância daquele trabalho, e em que sabiam que limpar superfícies e lavar vidrarias fazia parte do pacote. Do maravilhoso pacote de fazer ciência e fazer história.
Então eu entendo que qualquer um pode aprender técnicas, escrever teses e defender para a banca. Qualquer bobagem pode se transformar num trabalho acadêmico, na verdade. Mas só os bons, os realmente bons, são lembrados para sempre.
Eu fico pensando no quê o professor Junqueira pensaria se entrasse hoje pelo portão verde. Na dúvida, pego os camundongos e saio de fininho.
3 divagações:
o bom é isso amanda: ter certeza que existem coisas muito maiores do que as pequenezas que esse povinho considera importante.
e, pensando assim, quem sabe um dia você não escreve uma referência, como fez o junqueira! :o)
Muito bom o post.
Tenho poucas certezas profissionais na vida. Uma dela é que só sendo realmente apaixonado pelo que se faz é possível fazer algo realmente notório, que vá além de encher o bolso com papel pintado de verde ou com qualquer miudeza anti-monotonia.
Lindo Amanda!
É bom saber que existem pessoas como vc, que pensam dessa maneira.
Numa época em que havia menos recursos as pessoas usavam o cérebro e descobriam maravilhas como esse professor que eu nem conhecia mas que passo a admirar a partir de hoje.
E quem sabe daqui a muitos anos algum biólogo se lembre da Doutora Mirasierras!!!
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