Quando eu conheci o orkut, em 2003, fiquei com receio da exposição. Eu dosava bem o que escrevia no meu perfil, escolhia quem iria adicionar como amigo e pensava muito quando queria colocar uma foto. Aos poucos consegui encontrar um meio termo, até que o orkut passou a ter várias funcionalidades estranhas. Primeiro você podia saber quem visitava seu perfil - em contrapartida, suas visitações também eram entregues. Lembro que não me incomodei ao saber que as pessoas que eu tinha visitado ficariam sabendo da passagem, porque eu olhava os perfis dos meus amigos e eles não teriam motivos para ficarem incomodados. Mas me incomodava ao ver quem estava me vigiando, porque percebi que havia muito mais gente interessada na minha vida normal do que eu poderia imaginar. Acabei bloqueando o aplicativo.
Depois vieram outras mudanças e de repente meu perfil começou a ser tomado pelas atualizações dos meus amigos. Eu ficava sabendo quando eles postavam fotos novas, quando mudavam de estado civil ou quando deixavam depoimentos para pessoas que eu desconhecia. Irritada com esse excesso de informações desimportantes, bloqueei também essas novidades e tantas outras que viriam a surgir.
Até que começou a moda do facebook.
Eu fiz meu perfil e o esqueci por muito tempo. Aos poucos o programa se popularizou aqui no Brasil, e de uma hora para a outra, todos os contatos que eu tinha no orkut apareceram lá. Ao mesmo tempo, o orkut começou a minguar. Eu não recebia mais recados, e quando os escrevia, esperava semanas pela resposta. Meu scrapbook era invadido por recados purpurinados desejando uma semana feliz, e só desconhecidos de sobrenomes dO Clone passaram a me adicionar.
Conforme aprendi a usar o facebook, também fui esquecendo o orkut. Até que o deletei, porque um programa já era o bastante para escancarar a intimidade aos quatro ventos. Eu, que antes me preocupava com as frases do meu perfil do orkut, me vi caindo nas graças do facebook. Comecei a escrever amenidades, a comentar o que os outros escreviam, a curtir vídeos e clipes de música. Joguei farmville e cityville, marquei os conhecidos nas fotos, passei a dividir momentos peculiares do cotidiano. De repente, comecei a receber emails e mensagens inbox dizendo que se divertiam muito com o que eu escrevia.
Aí eu comecei a cair na real. Porque "divertida" não é bem o termo que eu usaria para me definir. Mas verdade seja dita, "popular" também não me define - e mesmo assim, comecei a bater papos virtuais com pessoas que antes só passavam por mim e ganhavam "bom dia".
Eu percebi que estava sabendo a cor do sofá da menina que fez faculdade comigo, o destino da viagem da amiga da minha prima e o pé na bunda do colega que eu só conhecia pelo apelido. Fui ficando incomodada. Se eu saísse do trabalho correndo, sem me despedir, e na volta para casa quase fosse atropelada por uma louca que ultrapassou o farol vermelho, poderia chegar em casa e escrever no facebook "impressionante como tem gente sem noção fazendo merda!". Aí, pronto: a garota que trabalhava comigo podia achar que tinha feito algo, me magoado, e por isso fui embora sem me despedir. Será que indiretas e mal entendidos virtuais só aconteceram comigo?
Embora incomodada com isso, confesso que fiz do facebook meu diário virtual. Eu sempre tive blog e sempre usei esse espaço para desabafar, só que perdi a mão e comecei a levar essa intimidade toda para um lugar onde todos podiam ler. Onde todos podiam pensar o que quisessem, podiam saber da minha vida, podiam partilhar do que eu quis manter protegido por muito tempo. O facebook caiu nas minhas graças e eu perdi a mão.
O ápice disso tudo foi há algumas semanas, quando recebi aquele email que serviu de inspiração pro maior post do mundo, em algum lugar aqui embaixo. Quando tudo aconteceu, quando eu entendi que a maldade iria se disseminar e atingir pessoas que eu estimava bastante, senti uma enorme necessidade de me proteger. Eu pensei: poxa, essas pessoas estão me julgando como bem querem, não estão em momento algum pensando no que sabem a meu respeito, e eu vou manter minha vida escancarada para elas? Vou fingir que elas são minhas amigas e continuar colocando fotinhos da minha casa? Sabe, não tem o menor cabimento.
Se não existisse internet, bastaria deixar o tempo passar. Se as coisas mudassem, um dia seria melhor; senão, a vida correria e um dia eu não pensaria mais nelas - nem elas em mim. Mas existe a maldita internet. Existe facebook, msn, twitter, google +. Não existem mais emails semanais, porque agora a gente tem que responder tudo na hora. Não existem mais telefonemas, e a gente nem sabe direito o número da casa dos nossos amigos. Não existem mais cartas!
Infelizmente, não tenho o poder de mudar o mundo. O big brother virtual é tentador e quase todo mundo acaba aderindo. Então vou tentar ao menos me proteger. Eu me expus muito, por muito tempo, e só perdi com isso. Ganhei apenas decepção, arrependimento e até uma ponta de vergonha.
Como a internet existe e é definitiva, vou voltar aos primórdios, em 2001, e usar novamente o meu blog como confessor. Não vou deletar meu facebook porque quero manter contato com pessoas que nunca vejo, mas vai ser só isso (já que nem para lembrar dos aniversários esse programa me serve). Acho que já paguei todos os preços pelas minhas saliências virtuais, então estou zerada e vou recomeçar.
3 divagações:
mto bem, preserve-se!!!
e vai funcionar meu amor!
beijos
Eu concordo. Tem gente me pedindo autorização de amizade que eu nem lembro quem é....
Sou a favor das cartas e dos telefonemeas, é claro. Vc sabe disso né?
beijos
Heyyy!
concordo plenamente.
e tenho mta saudade do meu blog. quem me dera poder escrever novamente... falta de tempo... vida loka... aff...
e concordo com sua mamis, tb sou a favor das cartas e dos telefonemas. :)
mas sei bem q vc não gosta mto de falar ao telefone. se eu to bem lembrada, eheheh
te adoro querida !!
bjks
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