8 de setembro de 2011

Sobre a pobreza de espírito

Se tem algo que eu realmente aprendi na minha vida, se tem algo que meus pais me ensinaram com maestria, é a ser honesta. Eu nunca peguei nada que não era meu, nunca levei créditos por algo que não fiz e nunca fiz alguém sofrer de propósito. Eu sempre respeitei as pessoas, seus posicionamentos e suas posses, e talvez por isso, também sempre defendi as minhas.
Desde muito nova eu senti ter assumido um compromisso com a verdade. Por isso, eu minto o mínimo possível (se eu disser que nunca minto, bem, estarei mentindo) e não faço nada que vai contra as minhas convicções. Eu não convivo com pessoas cujos ideais me são repulsivos e não fico em lugares aonde a filosofia adotada vai contra as minhas crenças. Eu respeito e vou embora, sempre me esforçando para fazer essa ruptura de pessoas e lugares com cuidado - porque, mais uma vez, me incomoda muito a ideia de fazer alguém sofrer.
Pode ser que esse texto não tenha nexo algum para quem não está a par dos últimos acontecimentos, mas mesmo assim eu vou escrevê-lo. Porque da mesma forma que não gosto de ser injusta, não admito ser injustiçada. Quando estou errada, eu peço desculpas e tento reparar meus danos. Mas quando eu não faço nada errado, não aceito ser julgada.
A quem possa interessar, quero esclarecer que nunca me denominei uma aluna de doutorado, mestrado, ou o que possa haver na FMUSP. Eu sempre disse ser "estagiária" ou "aluna especial" durante o tempo que estive na Oftalmologia. Quanto a minha (felizmente) breve passagem pela Patologia, agora eu realmente não sei como denominar. Eu procurei uma pessoa na faculdade buscando algum aconselhamento profissional, essa pessoa me ofereceu a possibilidade de prestar um serviço específico em um projeto e eu aceitei. Por isso eu disse ter "participado de projetos" na Patologia. Repito, nunca fui aluna e meu nome nunca esteve inserido em nenhum projeto de pesquisa. Se ser "participante de projeto" tem algum significado obscuro que indique qualquer tipo de vínculo, então eu não sou - e não existe denominação para o que eu fiz enquanto estive ligada à Patologia. Patologia, quero frisar. Não existe departamento de Poluição Experimental - eu sou apenas um animalzinho que confunde nomes de departamentos, laboratórios e linhas de pesquisa.
Por ter feito exposição de camundongos à poluição, recebi durante dois meses o valor referente a meia bolsa (não sei dizer se de mestrado, doutorado, CAPES ou FAPESP), descontados os encargos tributários. Ao término da exposição, recebi por mais um mês - referente a extração de RNA que seria feita com o material coletado no sacrifício dos camundongos.
Paralelamente, comecei a frequentar um laboratório de Oftalmologia para fazer minha pós-graduação. Inicialmente isso aconteceria na Patologia, mas quando fui para lá, eu não sabia tudo o que estava acontecendo e nem sabia que estava entrando no meio de uma grande encrenca. Como eu sou um peixe muito pequeno e não compro briga dos outros, mudei de departamento.Aliás, na verdade, a pós-graduação foi uma ideia que surgiu quando procurei o tal aconselhamento profissional com a pessoa que já citei. Fiquei sabendo que nesses departamentos só existia o doutorado direto, programa no qual eu ingressaria. Até então, eu nunca havia pensado em fazer um doutorado direto - quando comecei a considerar a pós, obviamente pensei antes no mestrado.
Após o final do sacrifício dos camundongos, me dediquei ao que estava acontecendo na Oftalmologia. Então eu aprendi a cultivar células, extrair RNA e cDNA e escrevi um projeto. Veja, eu nunca disse que tinha domínio de nenhuma técnica aprendida. Mas sim, eu fiz e sou capaz de repetir o que aprendi a fazer. Existe uma grande diferença entre aprender e dominar uma técnica, e como eu sou plenamente capaz de fazer essa diferenciação, sei qual é meu grau de aprendizagem e de capacidade de realização. E também, sejamos espertos: você nunca irá afirmar que domina algo se não for verdade - afinal, seus conhecimentos serão colocados à prova em alguma ocasião.
As extrações de RNA foram sendo adiadas com o conhecimento e aval daquela pessoa que tinha inicialmente me indicado.
Muita coisa aconteceu desde que procurei essa pessoa há meses atrás. Minha vida pessoal não vem ao caso; basta dizer que ela é e sempre será a minha prioridade. O meu bem estar e o da minha família vem antes de qualquer título ou oportunidade que possa surgir. Dito isso, durante minha passagem pela FMUSP, pude presenciar diversas falas e atitudes que eu desaprovo. Muita fofoca, muito diz-que-me-diz, muita necessidade de agradar, muita insatisfação velada, muita injustiça observada. E eu nunca fui ninguém lá dentro - sequer uma aluna, oficialmente -, então a possibilidade de mudanças não estava nas minhas mãos. Se eu estivesse vivendo um outro momento de pessoal, se eu não enxergasse outras alternativas, talvez pudesse ser capaz de relevar. Mas existe vida lá fora. E com tantas coisas realmente importantes e urgentes acontecendo, eu não quis me dispor a trabalhar todos os dias, o dia todo, até que surgisse uma oportunidade de começar meu projeto. Eu propus uma frequência menor - meio período ou alguns dias cheios na semana - mas minha proposta não foi interessante para o departamento onde eu estava. Concluímos que eu não ficaria. Eu não fui agredida, não agredi ninguém, abracei meus colegas e fui embora.
Diante disso, entrei em contato com a pessoa que procurei inicialmente porque, é claro, eu lhe devia uma explicação. Nunca, em momento algum, eu esqueci que tinha me comprometido com as extrações de RNA. Eu escrevi para essa pessoa para justificar a minha saída e para questionar se eu poderia terminar aquele trabalho aos finais de semana - ou então, para devolver o que me havia sido pago. Mas não obtive resposta. Até hoje.
Eu não preciso dar mostras do meu caráter a quem me conhece. Meus familiares e amigos podem confirmar a preocupação que tenho em fazer tudo da forma correta e sem nenhum prejuízo a quem quer que seja. E é por isso que me dei ao trabalho de vir aqui e escrever tudo; porque eu não aceito insinuações sobre a minha honestidade. Eu nunca pensei em ficar com o dinheiro que me foi pago e fingir que nada aconteceu. Eu procurei quem deveria ser procurado e não obtive retorno - e essa pessoa, ao invés de questionar o que seria feito, me acusou de não cumprir com o que havia sido combinado. Essa pessoa, após um mês, deve ter acordado num dia especialmente maligno e eu fui o alvo escolhido. Essa pessoa, creio eu, deve ter visto meu perfil no Linkedin e ficou inexplicavelmente revoltada por eu ter escrito lá que participei de projetos na FMUSP. Aliás, sim, eu cometi um erro: escrevi no meu perfil no Linkedin que estava na FMUSP desde o começo do ano - na verdade, eu comecei a frequentar o local em março e comecei efetivamente meu trabalho em abril. As datas estão agora devidamente corrigidas.
Voltando ao serviço que realizei, para mim, estar presente e trabalhar significa participar. Procuremos no dicionário o significado de "participar". Não há referência alguma sobre vínculos de trabalho, publicações, ou o que quer que possa ter passado pela mente dessa pessoa. Vou aproveitar a oportunidade para dizer que o que me foi pago não incluía os cuidados que tive com os animais, como pesagem, alimentação e limpeza, e nem participação nos dias de sacrifício. Mas eu entendi que isso fazia parte de um todo, e não vi problemas em participar desses trabalhos. Mas pensando bem, eu deveria ter sido paga, não é? Uma vez que eu era uma maria-ninguém que havia sido paga para prestar um serviço específico, não seria justo receber por qualquer outro serviço prestado além do que tivesse sido estabelecido a princípio?
Como eu não tive a oportunidade de questionar como poderia terminar o trabalho com os camundongos, o dinheiro foi devidamente devolvido. Exatamente como poderia ter sido feito há um mês, caso a pessoa procurada tivesse tido a honradez de responder minha mensagem.
Felizmente, minha consciência está em paz, muito obrigada. Eu não sou desonesta, não sou mentirosa e não me aproprio do que não me pertence. Quando vou embora de algum lugar, eu pego as minhas coisas, deixo lá o que não me pertence e me despeço de todos, explicando meus motivos. Então, os únicos sentimentos que tenho em relação a tudo o que aconteceu é um grande asco e um pouco de revolta.
Revolta porque eu fui julgada, e nunca consultada. Porque conhecendo essas pessoas como conheço, sei tudo o que deve ter sido dito a meu respeito. Porque sei que aquela unanimidade de 3 ou 4 pessoas é bastante cruel com quem quer que se posicione de forma diferente à deles - o que inevitavelmente me leva a pensar: o que aconteceria se cada um deles soubesse exatamente o que o outro pensa? O que aconteceria se eu resolvesse vestir a carapuça de filha da puta e repartisse todas as opiniões que ouvi de uns a respeito dos outros? Como será que os donos da verdade se sentiriam ao saber o que seu prestimoso colega pensa a seu respeito?
E o asco, ah, ele se refere ao sempre presente politicamente correto. As pessoas que se julgam as mais corretas, éticas, honestas e acima do bem e do mal são sempre as mesmas que apontam o dedo, que conjecturam, que falam com propriedade sobre a incompetência de (quase) todos os colegas e que plantam aquela semente de quem-está-tendo-caso-com-quem.
Mas olha, foi muito terapêutico escrever esse texto. Eu consegui digerir as palavras grosseiras que li hoje e concluí que, vindas de quem veio, eu não poderia esperar algo diferente. Foi maravilhoso ter estado na FMUSP e ter convivido com pessoas tão peculiares - as coisas que vi e ouvi lá dificilmente se repetirão em outros lugares. Foi importante ter conhecido de perto pessoas que me eram um tanto distante, mas que eu admirava e estimava bastante. Existem lugares e pessoas que nunca deveriam ser vistas de muito perto - mas já que me arrisquei, vou aproveitar a lição e nunca mais me aproximar.

1 divagações:

Marcelo "Muta" Ramos disse...

e não é que dá vontade de jogar a m&rd4 no ventilador mesmo?

mas índole é índole e isso a gente não muda... não se preocupe que o que essas pessoas que assim pensam, bem, não importam mesmo no final das contas!

beijos