7 de fevereiro de 2012

A parte de mim que encalhou

Depois de tantos anos tentando encontrar algo que me satisfaça profissionalmente, eu concluí que vou fazer qualquer coisa. Qualquer coisa MENOS trabalhar num laboratório, porque isso sim é algo que eu sempre soube não gostar e que, por sacanagem do destino, tive que fazer algumas boas vezes.
Ontem, na primeira aula de Farmacologia desse semestre, a professora falava sobre o boom da terapia gênica que ocorreu há uns anos atrás. Ela falava sobre os altos e baixos da ciência e sobre as descobertas promissoras que surgem de tempos em tempos. Eu me senti uma banana, porque escolhi ser bióloga bem graças a essa promissora terapia gênica. Mas lá se vão uns bons anos, eu já entendi há tempos que ser bióloga não dá dinheiro, e mais ainda, eu entendi que quero ganhar dinheiro - e não trabalhar de graça. Dito isso, caí na faculdade de farmácia.
Eu gosto da faculdade e sempre penso que deveria ter sido a minha primeira escolha. Apesar do cansaço (e dos anos a mais) que eu não tinha quando estudei biologia, acredito que esteja acertando nessa escolha. Mas essa escolha foi motivada pela vontade e necessidade de finalmente, aos 28 anos, começar a construir uma carreira. E a carreira que é bom não deslanchou ainda.
Antes eu achava que era culpa minha, mas agora não sei o que acho. Quando eu saí da faculdade de biologia, tinha a sensação de não ter aprendido nada. Hoje, nas aulas de farmácia, eu percebo o quanto já sei. Durante muito tempo eu duvidei que tivesse realmente um bom inglês, então eu fiz um desses exames de proficiência e finalmente entendi que posso escrever "inglês fluente" no currículo. Eu fiz cursos, trabalhei em bons lugares, conheço um monte de pessoas. E cá estou eu.
Agora estou vivendo uma situação nova e inesperada. Como estudante de farmácia, eu me candidato a várias vagas de estágio. Mas não sou chamada quase nunca. E quando sou, tenho a impressão que a minha experiência conta contra mim. Quer dizer que não existem boas vagas para biólogos, tenho experiência demais para ser estagiária e ainda não posso concorrer às vagas de farmacêutica. E me pergunto como será no dia em que eu puder concorrer, já que não estou nessa área e talvez me forme sem ainda estar.
Nas raras entrevistas em que vou, me vejo perdendo a vaga para pessoas com menos experiência, com menor nível de inglês e com poucos conhecimentos na área. Algumas vezes fico sabendo que a pessoa contratada precisou ser treinada diversas vezes porque tem uma certa dificuldade em aprender, que mandou um e-mail com erros de português, que não está apta a assumir cargos melhores. Afinal, isso tudo faz algum sentido? Será que eu estou fadada a ficar desempregada e/ou continuar trabalhando nos piores lugares do mundo?
Sabe qual é o meu medo? É mais uma vez fazer uma faculdade que não dê em nada. É investir mais tempo e dinheiro em uma nova formação e continuar exatamente aonde eu estou hoje.
Eu não tenho medo de trabalhar. Se preciso for, servirei cafés e mostrarei roupas com boa vontade. Mas se esse for o meu caminho, a vida poderia me dar alguma pequena dica para que eu pare por aqui mesmo e invista meu dinheiro em algo mais proveitoso do que uma nova faculdade. Hoje eu tenho certeza de que serei mais feliz chegando para servir cafés com meu carrinho velho do que passando calor e nervoso dentro dos ônibus e metrôs, com dois diplomas guardados no fundo da gaveta.

3 divagações:

mãe disse...

Olha Amanda, eu tenho acompanhado sua caminhada e sei o que vc deve estar sentindo. Ás vezes eu também não entendo.
Vc sabe o quanto eu torço para que as coisas aconteçam. Acho até que, o que eu mais quero no momento é que vc encontre seu caminho, que seja feliz dentro da sua profissão.
Nunca duvide da sua capacidade, da sua inteligência. Eu acredito que vc vai encontrar o lugar certo, com pessoas corretas e boas. E nós vamos comemorar muito nesse dia. Não perca a esperança.

Gab Capanema disse...

Você tem inglês fluente e está cursando uma segunda faculdade, agora de FARMÁCIA?! FARMÁCIA...?!?!
Pq, caso você não tenha uns bons duzentos mil dinheiros guardados em um banco para abrir seu próprio negócio na área da saúde quando se formar, você provavelmente trabalhará muito e ganhará a mesma coisa de bióloga.
Não sei em SP, mas aqui no Rio, com inglês a gente arruma vaga de secretária / recepcionista em cada esquina; o salário varia de R$ 1500,00 a 2500,00 e, na grande maioria, com chances de crescimento na empresa. Dane-se se a pessoa é formada ou não, só basta estar cursando Administração ou qualquer coisa do tipo. Em qq faculdade.
Digo isso por experiência própria. Eu tb era da área da saúde e fui forçada pela vida a começar do zero na área administrativa. Hoje sou grata pelos problemas que me fizeram mudar de rumo. Perrengue sempre tem, no mundo corporativo é "cão come cão", vc não tem amigos, não tem tempo livre... nada muito diferente de qualquer outro ramo da vida profissional, mas pelo menos agora eu reclamo com dinheiro na conta. Bjs, se cuida.

Amanda disse...

Gab, acredite: se eu tivesse duzentos mil no banco, não estaria muito preocupada em ganhar mais dinheiro!
Eu estudo Farmácia porque, apesar de ser bióloga, sempre trabalhei nessa área. Trabalhei em lugares bons até, mas coisas acontecem e eu acabei me perdendo um pouco.
Aqui em SP o mercado para Farmácia é bem bom. Até que há bastante vagas e os salários não são baixos.
Você vê, eu passei muito tempo encalhada mas essa semana consegui uma vaga na indústria farmacêutica. Sinceramente, se eu estivesse começando minha vida profissional agora, eu não entraria na área da Saúde. Mas já que estou dentro, me virei nos 30 e (até que enfim) cheguei a algum lugar.
Obrigada e volte sempre! =)