22 de fevereiro de 2012

Ponto de equilíbrio

Acho que o normal é ter alguns dias felizes, outros nem tanto. Não acredito em felicidade intermitente, e tristeza muito longa merece atenção e tratamento. Acho ainda que, sabendo que a tristeza sempre faz parte da vida, precisamos saber lidar com ela. De vez em quando é importante dar espaço para a tristeza, entender o que há de errado e procurar saídas. Acima de tudo, acho que a tristeza é a oportunidade que cada um recebe para aprender e crescer. Os momentos ruins são motivadores.
Outro dia, conversando com uma amiga, ela disse que é muito difícil não ter problema de nenhuma natureza. Ela acredita que algum aspecto da vida sempre vai pior, e que é assim que a vida se equilibra: numa espécie de "rodízio de problemas". Eu não concordo completamente com essa ideia. Sim, eu acho impossível não ter problema algum - até porque nós, humanos, somos especialistas em encontrar pelo em ovo. Mas acho que o equilíbrio da vida está no meio termo de cada aspecto.
Família unida, um relacionamento perfeito, a casa dos sonhos, o emprego desejado, amigos sempre presentes. Reunir tudo de mais perfeito, para mim, é impossível até por questões bem reais como tempo e logística. Se você quiser ser muito bem realizada profissionalmente, precisará de muito tempo e dedicação. Consequentemente, esse tempo faltará em outras situações - você não poderá ver seus amigos toda semana ou não levará seus filhos para a escola, por exemplo. Atingir a perfeição em tudo é realmente impossível.
Mas como eu disse, para mim, a chave está no equilíbrio. Imagine ter uma família bacana, apesar daqueles seus tios que não se entendem de jeito algum. Ter amigos bons que vez ou outra dirão coisas que machucam, mas que estarão por perto quando você quiser ou precisar. Ter um/a companheiro/a com quem você se dê bem e faça planos comuns. Ter uma casa bonitinha, apesar do bairro não ser assim tão bom. Ter um emprego que não é aquilo que você sonhou, mas que tem lá sua graça e proporciona dinheiro justo para pagar as contas e fazer pequenas extravagâncias. Isso não me parece impossível. Aliás, isso me parece necessário para viver bem. Atingir o equilíbrio.
Os dois extremos são perigosos. Altas expectativas sempre geram frustração, e por outro lado, o conformismo com o que não é conseguido cria uma sensação enorme de impotência. De falta de controle sobre a própria vida. Acho perigoso pensar "eu não consigo, não dá, vou desistir disso e focar em outro aspecto". Não acho que um emprego excelente substitui um relacionamento. E não acho que um excelente relacionamento substitui amigos.
Pode ser sim que a gente não consiga sequer um meio termo em alguns aspectos. Pode ser que algumas coisas nunca se resolvam. Paciência. De fato, por mais que a gente teime no contrário, a nossa vida foge ao nosso alcance. Saber lidar com isso, com uma ausência total, é muito difícil. Mas talvez se torne mais fácil se a gente tiver a certeza de que fez tudo o que pôde - e que não se acomodou porque o restante ia muito bem.   

7 de fevereiro de 2012

A parte de mim que encalhou

Depois de tantos anos tentando encontrar algo que me satisfaça profissionalmente, eu concluí que vou fazer qualquer coisa. Qualquer coisa MENOS trabalhar num laboratório, porque isso sim é algo que eu sempre soube não gostar e que, por sacanagem do destino, tive que fazer algumas boas vezes.
Ontem, na primeira aula de Farmacologia desse semestre, a professora falava sobre o boom da terapia gênica que ocorreu há uns anos atrás. Ela falava sobre os altos e baixos da ciência e sobre as descobertas promissoras que surgem de tempos em tempos. Eu me senti uma banana, porque escolhi ser bióloga bem graças a essa promissora terapia gênica. Mas lá se vão uns bons anos, eu já entendi há tempos que ser bióloga não dá dinheiro, e mais ainda, eu entendi que quero ganhar dinheiro - e não trabalhar de graça. Dito isso, caí na faculdade de farmácia.
Eu gosto da faculdade e sempre penso que deveria ter sido a minha primeira escolha. Apesar do cansaço (e dos anos a mais) que eu não tinha quando estudei biologia, acredito que esteja acertando nessa escolha. Mas essa escolha foi motivada pela vontade e necessidade de finalmente, aos 28 anos, começar a construir uma carreira. E a carreira que é bom não deslanchou ainda.
Antes eu achava que era culpa minha, mas agora não sei o que acho. Quando eu saí da faculdade de biologia, tinha a sensação de não ter aprendido nada. Hoje, nas aulas de farmácia, eu percebo o quanto já sei. Durante muito tempo eu duvidei que tivesse realmente um bom inglês, então eu fiz um desses exames de proficiência e finalmente entendi que posso escrever "inglês fluente" no currículo. Eu fiz cursos, trabalhei em bons lugares, conheço um monte de pessoas. E cá estou eu.
Agora estou vivendo uma situação nova e inesperada. Como estudante de farmácia, eu me candidato a várias vagas de estágio. Mas não sou chamada quase nunca. E quando sou, tenho a impressão que a minha experiência conta contra mim. Quer dizer que não existem boas vagas para biólogos, tenho experiência demais para ser estagiária e ainda não posso concorrer às vagas de farmacêutica. E me pergunto como será no dia em que eu puder concorrer, já que não estou nessa área e talvez me forme sem ainda estar.
Nas raras entrevistas em que vou, me vejo perdendo a vaga para pessoas com menos experiência, com menor nível de inglês e com poucos conhecimentos na área. Algumas vezes fico sabendo que a pessoa contratada precisou ser treinada diversas vezes porque tem uma certa dificuldade em aprender, que mandou um e-mail com erros de português, que não está apta a assumir cargos melhores. Afinal, isso tudo faz algum sentido? Será que eu estou fadada a ficar desempregada e/ou continuar trabalhando nos piores lugares do mundo?
Sabe qual é o meu medo? É mais uma vez fazer uma faculdade que não dê em nada. É investir mais tempo e dinheiro em uma nova formação e continuar exatamente aonde eu estou hoje.
Eu não tenho medo de trabalhar. Se preciso for, servirei cafés e mostrarei roupas com boa vontade. Mas se esse for o meu caminho, a vida poderia me dar alguma pequena dica para que eu pare por aqui mesmo e invista meu dinheiro em algo mais proveitoso do que uma nova faculdade. Hoje eu tenho certeza de que serei mais feliz chegando para servir cafés com meu carrinho velho do que passando calor e nervoso dentro dos ônibus e metrôs, com dois diplomas guardados no fundo da gaveta.